sábado, fevereiro 26, 2022

 Que tristeza é o sentimento de que você nunca mais será feliz na vida. Que desesperador o fato de que isso é só triste e não desesperador.

quinta-feira, janeiro 13, 2022

Lá vou eu buscar a Luisa no aeroporto.
Lá vou eu aproveitar a boa vontade do tempo longe pra focar nas partes boas, até que a parte ruim volte a se fazer presente. E cada vez ela se faz presente mais rápido. Um eterno groundhog day que cada vez é mais curto.

Há duas maneiras de ver isso.

sábado, janeiro 08, 2022

Ontem antes de dormir, assisti mais um episódio do genial "How to with John Wilson". O episódio da vez era o adequadíssimo "How to remember your dreams". Eu vim pensando uma vez ou outra o quão pouco eu sonhava e como ultimamente meus sonhos estavam ainda mais escassos. Ou então, como ele bem diz no episódio, eu só não tava lembrando, afinal, a média humana é, supostamente, de 4 sonhos por sono de 8 horas. Lo and behold, eu acordo hoje e não só sonhei, como me lembro e venho aqui relatar - apesar de que, sim, lembro de 3 sonhos e o quarto eu não lembro.

Na real, talvez tenha sido um sonho só, daqueles que você entra num buraco da parede de casa e sai numa porta de um avião, mas enfim, deixa eu focar num sonho/parte, porque eu achei muito doido - como pode um sonho fazer isso?

Eu estava em algum lugar com o Neil Drake, aquele americano que microdose LSD, tem uma kombi chamada "fofinha" em Foz do Iguaçu, namora a Bella, uma brasileira gatíssima, tem um dog Hurley velhinho, pesca peixes gigantes e viaja pra Antártica onde tira fotos iradas de natureza. Sim, ele em si é material de sonhos, pois os signos que o representam são todos malucos e misturados. Enfim... acho que porque eu comentei ontem que achava curiosa essa linha de conteúdo de instagram/tiktok de "gringos comentando como é ser gringo no Brasil/ensinando inglês", acabei juntando as coisas e sonhei que ele chegava e falava "Como é to speak with the torchlight em português?"

Pra quem não sabe, to speak with a torchlight é uma expressão que significa algo como "falar privadamente, falar algo confidencial, que requer atenção". Torchlight = aquela tocha de fogo que as pessoas carregavam antes de ter eletricidade, afim de iluminar os lugares. Então, permaneceu a expressão até hoje de, quando necessitar falar algo "aqui entre nós", um assunto que requer atenção e até sigilo, falar "we should talk; but not here. We should speak with a torchlight"

Exceto que... não. Não existe essa expressão. Eu procurei no google por algum motivo. Mas no sonho, aquilo fazia todo sentido. Ele perguntou isso e eu tive dificuldade de achar um equivalente em português, mas não de entender o que essa expressão que não existe significava. Era tipo óbvio, domínio público.

Quão doido é isso?

Muito podia falar sobre isso, mas acabei de acordar. Não tenho a força nem a destreza cerebral pra tal. Porém, dentre essas muitas coisas, a que vou escolher focar é aquela história de que "build and it will come" do filme "Field of DREAMS"(!), que acabou sendo, inclusive, o final do episódio do "How to with John Wilson". Então está lançada a campanha para tornar essa expressão, que me parece fazer muito sentido, algo popular. Algo que não é só uma loucura de sonhos, até porque não é loucura at all.

Convido-vos através deste post a chamar os amigos para uma reunião importante pós expediente, onde você vai expor para eles uma coisa importante (a divulgação dessa expressão rumo à massificação). Mas, pra dar certo, não banalize. O ser humano gosta de um mistério; valorize a missão. Não fala de cara o motivo da reunião. Fala pro convidado pra ele não convidar mais ninguém e nem postar na internet. Pede pra desligar o celular antes de você começar a falar. Afinal, você precisa de toda a atenção deles. Você não pode disputar com outros assuntos.

Você precisa speak with a torchlight. 

sábado, janeiro 01, 2022

Sneaky... 2022!

Porque o relógio do artur ainda tá no Brasil, apesar de ser 10:38 em Miami, ele deu esse ultimo post como primeiro de 2022, meia noite e 38. 

Ha! Gostei. Chupa, 2021!

Que seja um bom presságio. 2022 é um ano importante: VINTE anos de artur!

Vou me empenhar pra fazer um livro com os melhores posts daqui. Merece. Tomara que valha a pena.

Sneaky 2021 acabando com um dia lindo de praia, solzinho, produtividade, pra gente achar que vai ter saudade. Mas não vai. E nem sei se isso significa que 2022 vai ser rmelhor. Precisamos mesmo de um ano novo? Todo ano parece que piora, ultimamente. Não lembro de um ano novo recente que foi melhor que o anterior. Eu taria de boa com algum ano usado. 2007, 2011, 2012, 2014... hell, 2010 parece bom em comparação com os atuais.

Sneaky 2021 também sinalizou uma solução aos meus problemas pra falar "ha! to de brinks; volta 3 casas, otario".

Esse foi o ano mais sozinho da minha vida. Nunca me senti tão sozinho. Eu podia ser sozinho. Mas era por opção. Tinha gente querendo, eu que ficava/gostava de ficar sozinho. Agora pago o preço. Vou passar não só o reveillon sozinho, como os quatro próximos dias. Tomara que eu aprenda. Que essa raiva misturada com tristeza, angústia e overall sentimento de quem está completamente perdido me consuma de tal forma que eu finalmente trace uma linha e dê um basta a essa merda que tem sido minha existência. Que eu ganhe coragem e certeza, pois estou perdido e covarde perante a tudo. Medo de perder o que já não tá valendo mais nada. Mas aí eu volto pro lance do ano usado: quem me garante que isso, mesmo sendo essa merda, não é as good as it gets?

Whatever. Sei nem o que dizer. Escrevi e apaguei milhões de coisas. Não consigo nem concordar comigo mesmo. Esse é o efeito desse ano em mim. O ano que fui tão abandonado que me abandonei também. Ai tadinho, pobre coitado esquizofrenico filho da puta. Fica sozinho pra se fortalecer na pena dos outros. E ainda põe a culpa num "ano". 

Enfim...

Vaza 2021! 2022 favor não me faça ter saudades de 2021.

quinta-feira, dezembro 23, 2021

A quimioterapia é a maior conjunção entre a ciência e a fé.

Você mata, via processo científico, todas as células ruins (e as boas), na esperança - instrumento de fé - de que o corpo seja forte e rápido o suficiente pra regenerar, criar novas células saudáveis a tempo. Mas essencialmente o movimento pra isso é a destruição. Você torce pra que o corpo aguente. Às vezes ele não aguenta.

Ainda assim, ninguém vê a quimioterapia como uma tentativa de encerrar aquela vida. Coloca-se o paciente para passar por tudo aquilo porque se quer muito que ele continue vivendo e, uma vez vencida essas dificuldades, ele tenha uma vida ainda melhor, mais feliz; exatamente por ter sobrevivido toda aquela provação.

A gente tentou os processos científicos. Faltou a fé? A contagem de células tá e tem sido muito baixa, mas a última sessão tá quase aí... 

Isolada, essa dor que vai vir da última e derradeira sessão talvez não seja nem tão forte. Mas comparativamente - pois tem sido tão exaustivo o processo, eu sei, eu vivo isso junto; é o nosso corpo - parece ser demais pra suportar. Será que é mesmo melhor jogar a toalha? Não vale a dor pra poder chegar a esse novo momento onde todas as células são transformadas e temos um corpo limpo e saudável pra aproveitar esse momento global de transformação? 

Ou a transformação é abraçar a morte? Não consigo ver como. Mudam os signos; o processo continua o mesmo. E pior, porque a gente passará a viver pra sempre com a mágoa e a cobrança de não ter feito o suficiente. de não ter sido suficiente. com a dúvida embebida em ansiedade do "e se?". E isso é eterno; não tem fé nem ciência que vão trazer as respostas pra essas dúvidas e a pomada pra essas chagas. É ficar satisfeito com um tumor benigno, que é contido e não vai invadir outras massas (mas ainda vai causar um bando de doenças), ao invés de tentar erradicar de vez um tumor maligno e poder viver livre e saudável.

Se há dúvidas: eu escolho aguentar a quimio do maligno. Todas as vezes. Porque lembro como esse corpo saudavel era lindo, e amo ele mesmo na doença, fraco. Porque acho que ele merece o que há de melhor e trocar uma quimio no fim por uma desde o início não é o melhor. E porque tenho fé que tá quase lá e o processo ciêntífico vai ter valido a pena. 

sexta-feira, dezembro 17, 2021

Also: essa é a primeira vez que eu falo do Pastrami aqui?
Que pai eu sou... E, afinal, não é esse o tema desses últimos 4 posts que acabaram de fazer 2021 ter mais posts que 2020?
:chef's kiss:

E esse também sou eu, pensando por que diabos eu me importo tanto com a contagem de posts de ano em ano a ponto de falar "poxa, tenho que gravar um voice memo pra anotar suas idéias de posts pra que eu possa depois transcrevê-las pra virarem post, pois esse ano não pode ter menos posts que o ano com menos posts da história de 2 décadas de artur (FYI 2020 com 7 posts)"

Esse sou eu, anotando idéias no voice memo do telefone (enquanto passeio com Pastrami) pra depois escrever, porque senão eu esqueço e nunca escrevo posts no artur.

O Pastrami vive pra poucas coisas:

Comer
Dormir
Brincar de pegar coisa
Caçar lagartixa
Nos amar
(mas principalmente) Passear

Só de você falar a palavra ele já mexe a cabeça. Não dá pra falar essa palavra casualmente por outros motivos, que ele entende que ele vai sair. Fica agitado, começa a botar a cabeça no seu colo. E aí rola todo um ritual. Eu me levanto pra pegar a coleira, ou a carteira, a chave, ou o chinelo - enfim; o bicho é espero e SABE quando ele vai passear - e aí ele se agita master, fica indo pra lá e pra cá correndo, subindo no sofá, indo até a porta e voltando pra você tipo "Oh, Meu Deus! Oh Meu Deus! Chegou meu momento! Eu vou passear!" 

Mas no momento em que eu pego a coleira dele... tudo muda. Ele passa a fugir de mim. Já vi cachorro que você põe a coleira no chão e ele "entra" dentro dela, ou, no mínimo fica paradinho pra você colocar nele. Com o Pastrami eu tenho que pegar as patas dele à força dentro do buraco da coleira (aquelas de peito, porque ele, apesar de vira-lata, é cachorro de madame).

Fico pensando... ele quer na real ser livre. Fica animado por saber que vai sair, vai andar lá fora. Mas não quer ir na coleira. Ele quer ir livre. Porque, no fim das contas, ele vive aprisionado por você, humano idiota.
Deixa o cachorro ser livre!

quarta-feira, outubro 06, 2021

 Esses filmes tipo física quântica do tempo ser cíclico, o início e fim serem na real um meio de um loop... eu sempre achei uma bobeira, mas mais e mais eu fico doido pensando que pode ser real e de repente a "morte" é descobrir como trick esse sistema e poder pular pra outro momento no "tempo" e realmente não tem isso de início meio e fim. A gente que criou narrativa pra fazer sentido dessa loucura toda que é o "tempo".

E essa minha revisão tem vindo muito por causa da música. Eu sempre falei que música é a linguagem do divino, ne? Se der um search aí no artur deve achar em algum momento eu falando isso, mas, se não escrevi, com certeza já falei em conversas por aí zilhões de vezes. Lembro inclusive, uma vez, caminhando pra PUC, de conversar isso com alguém. Talvez o Daniel Sydens... lembra dele? Enfim... falo isso porque porra... o que é a música? Como a gente acessa ela? Caralho, a música sucita tanta coisa... tipo, como o homem codificou o "som" pra definir o que era a nota e o que era o meio do caminho entre ela? E depois a combinação pra fazer acorde... pqp. Que bruxaria maravilhosa. Só pela música a experiência humana já vale a pena. 

Enfim, falei "codificou" porque os sons já existiam independente da gente. É de "Deus". E aí na hora da gente compor canções... como é isso? Como a gente acessa na nossa cabeça essas "alturas" de som e resolvemos combinar com outras e criar dinâmicas... nada disso tá dentro da gente, saca? A gente se conecta a alguma energia e traz do imaterial pra uma espécie de materialidade simulada.

Há quem seja tão escolado nessa bruxaria (chamar de ciência é muito pragmático pra mim) que acaba compondo com alguma lógica, intenção, método. Ou pelo menos eles dizem isso. Mas pra mim, um amante amador, sempre foi muito uma espécie de reza: você fecha os olhos, tira o máximo de razão do seu corpo e deixa ele ir sozinho na emoção, buscando os acordes que forem. Não manda muito. E isso acontecia tambem com as letras. Saía alguma frase/idéia qualquer da cabeça e em cima dela eu ia indo. Mesmo nos raps do Reverendo! Eu até pensava antes em um tema, no "o que eu quero falar nessa música?" e ficava ouvindo o beat milhões de vezes, pensando em um flow, até que em algum momento eu só cuspia a letra quase pronta e, por fim, dava alguma burilada só pra encaixar o que foi tão paixão que necessita razão pra fazer algum sentido.

Tendo dito tudo isso, voltemos pro lance do tempo:

Como eu posso explicar "Par ou Ímpar?", uma música que fiz em 2001, nem namorada eu tinha, sobre RELACIONAMENTO ABERTO? 

Eu nem sabia que isso existia. Muito menos que ia viver isso 18 anos depois.

E to lá falando "seu amor é par, mas o meu não é. eu só quero você como minha mulher". Eu fazia essas musicas e pensava "nao faz o menor sentido isso tudo, mas dane-se é só pra rimar". Só que hoje eu olho e caraca, o primeiro verso é a Lu, o segundo sou eu?

E depois, como explicar em "Queixo", que fiz em 2013, quando falo "abraço o meu unicórnio, o nome dele é Henrique, conheci ele no arco-íris lá de Recife"... 4 anos antes de conhecer o Henrique, gay, marido do Erick, de Recife?

Isso é a minha humanidade criando narrativa pra suportar o caos temporal? Ou será que se a gente fechar os olhos e se despir da razão a gente consegue ouvir os suspiros do passado e enxergar visões do futuro? E se aquela minha teoria da vida eterna for verdade? Sabe quando dizem que na hora que a gente vai morrer passa um filme da nossa vida? Então, imagina: você vai morrer e de repente revive a sua vida toda até o momento onde você vai morrer e aí passa um filme da sua vida e você revive ela toda até o momento onde você vai morrer e aí passa um filme da sua vida e... enfim, você nunca morre.

Se isso for verdade... talvez seja isso. Os deja vus, as intuições, a música e essas bruxarias são nada mais que resquícios dessa rerun interminável que é a vida. São os pequenos lapsos no meio da madrugada, entre uma pescada de sono e outra no sofá. Que são percebidos tão somente nos momentos de desconexão com nosso medo do caos. Nos momentos onde esquecemos a narrativa e abraçamos o randômico.

O que me leva a outra opinião doida e não-ortodoxa, de que o câncer e o Alzheimer não são doenças e sim mecanismos de purificação da maldição que é o viver. A vida é benção, mas o viver é uma maldição do caralho. O câncer mata tudo pra disso nascer um novo ser - o próprio, as vezes, mas sempre todos que o cercam. O Alzheimer vai pouco a pouco apagando tudo pra que saiamos desse loop viciante de falsas novidades.

Porque o sentido da vida é o novo. É a transformação. A repetição é a morte. 

No começo desse devaneio falei que a morte é descobrir como trick esse sistema e pular pra outro momento no tempo. Talvez não. Talvez seja o contrário. Talvez a morte seja o único jeito de pular fora dessa mesmice? Não sei. Só saí escrevendo o que saía de mim. 

Talvez seja algo que aprendi no futuro? 

domingo, agosto 22, 2021

Seriously, what are we doing as human beings? This experiment has completely failed, blew up on our faces. My friends have no space to put things on their table because it's taken by medicine. And they are away, traveling, so this sea of pills, "vitamins" and stuff they need to be "healthy" is only stuff they DON'T need to have during the week. 

I just read Billie Eilish has a condition that supposedly makes her associate things with shapes and colors. Isn't that imagination? If it's "associate", I think it it is. If it's "see" things as shapes and colors, then, I'm really tired of this world. A world I associate with shit but am more and more seeing as shit.

This has made me so uncomfortable. And then I get up, the AC is stuck again. I open the valve and this time, of course, a RIVER of water comes down from it, making the floor all wet, the bucket did nothing because there was so much water. And these dogs do nothing but pee and shit all over all the time. I can't take it anymore. Maybe pharma is not that evil. Maybe they are the only ones who could save us because I'm being foolish thinking I can live more than 40 (I'm 3 years away from that btw) without taking none of the thousand pills, vitamins and medicines my friends have all over their table.


quinta-feira, maio 06, 2021

Tava pensando que quando eu era pequeno os ricos eram em sua maioria feios. As mulheres deles não eram gatas. E hoje, além de tudo, eles são tão ou mais bonitos que "o resto".

Talvez porque o que ditava essas uniões era uma parada classista de manter a riqueza entre eles. Mas acho que tanto os caras pensaram "porra, quero tudo; mulher bonita também! foda-se manter entre a gente e só ter mulher gostosa pra tesão; sou milionário e quero ver e mostrar beleza toda hora" e aí com as gerações passando eles ficaram bonitos, quanto mercantilizaram e padronizaram tanto a beleza que basta ter dinheiro pra fazer os procedimentos que deixam eles bonitos.

E é isso; não tenho mais nada pra falar não. Sinto que o mundo é terrivelmente desigual e até isso o dinheiro consegue agora comprar. 

Mas isso não é novidade pra mim, né? Venho falando há uns anos o quanto não me importo com esse jogo e não quero jogar. Mas era ingenuidade minha. Não há como não jogar esse jogo. 

O capitalismo é Jumanji; você tem que zerar pra poder não jogar.

And that fucking sucks.

terça-feira, maio 04, 2021

eu to um pouco sem saco pra filmes que só fazem um "painel", dão um "panorama" de alguma situação.

sinto que tem que ser uma situação muito ampla e substancial e multifacetada, tão cheia de personagens, que requer uma coisa assim pra fazer sentido.

assisti esse "nomadland" e foi o ápice desse sentimento. nada acontece com o protagonista. tipo, muita coisa aconteceu. mas "e aí?". esse é o grande sentimento e não dá pra sempre justificar com "mas é isso mesmo? e aí? a vida não traz respostas e Zzzzz... "

no caso específico desse, sei lá, é meio triste, porque acho que fala muito da era que vivemos, onde se cultua tanto o capital e seus signos e a gente tá tão descolado da base (mesmo estando muito mais próximo dela do que do topo), que a grave situação de homelessness nos EUA por causa de gentrificação, robótica, amazon, silicon valley, highways etc. + toda a enorme quantidade de pessoas de coração quebrado com o capitalismo que buscam uma vida mais significativa e barata e (acham que) encontram isso na vida de nômade, parece ser... uma novidade. algo que os chama a atenção pelo ineditismo e, disso, nasce o interesse e praise ao filme. porque a abordagem é bem meh.

eu morei numa van por 8 meses. viajando os eua, com muita interseção com os lugares por onde o filme tenta transitar. indo as vezes mais darkzeira que ele - alo méxico, alo pandemia. achei que o filme nessa pau molecencia de aspiração de ser "painel" foi razo pacas. não me vendeu 20% do medo que é não saber o que te encontra no fim da estrada. a batalha homem x natureza. as inseguranças. a impossibilidade de sair do fundo do poço. de estar sempre a um acidente da completa falência. dos olhares dos outros quanto a sua situação. a humilhação de ter que pedir dinheiro porque algo quebrou na van - tratada como um pedaço de carro, quando é sua casa, tudo que você tem. quando você não tem nada e nada é tudo que você tem. as liberdades tambem, o lado bom da coisa.

o melhor momento do filme, pra mim, é todo o momento que ela vai pra casa da irmã - ao todo uns 8 minutos, at best, do filme - quando ela, no churrasco, dá uma peitada no real estate agent-- só pra, pau mole, cortar o papo rapidinho. decepção. um tema tão bom e importante.

sou 10 mil vezes o "Sound of metal", mas, sei lá, talvez seja isso que eu to falando do Nomadland e eu gostei mais porque eu nunca vivi isso, então parece "fresh" pra mim?

 

sábado, fevereiro 27, 2021

o vazio esvazia  a vontade à vontade e desse paradoxo nada nasce só uma silhueta evidenciando a ausência

quinta-feira, abril 02, 2020

O perdão é das ações mais humanas que existe. Animais irracionais perdoam? E mesmo assim, o perdão não é tanto racional; é em demasia sentimento. Ele nasce, se nutre, desenvolve e se pronuncia das profundezas do sentir compaixão, empatia, amor, querer. Aliás, o perdão pode virar ação, mas antes disso é sentimento e me pergunto qual - se algum - outro sentimento suplanta nosso ego de tal maneira que lhe rende submisso. O perdão faz o ego humilde, faz o ego se curvar e entender este ato tão estrangeiro a ele como um sinal de força e motivo de auto-congratulação. O perdão é o nivelamento de duas relações, o re-encontro em um ponto de equilíbrio de uma relação que se desequilibrou. O perdão é difícil na teoria, na prática é muito simples. O perdão é tomar responsabilidade pra si também. O perdão é co-responsabilidade.

Né?

quinta-feira, março 26, 2020

caiçara, jovem lobo do mar
a determinância do saber de tua luz
é docemente ingênua
a sola do teu pé está à frente do teu tempo
liderando um caminhar leve e fluido de quem tem muito caminho pra escolher
protegido do sol, exposto às pedras e aos grãos
quentes, cortantes.
o peito do teu pé exposto à luz, mas banhado constantemente
pelo ar
protegido da secura que é pisar à terra

voar, nadar, fluir
o mar é o limite, o amor é um doce beijo salgado em um pescoço fresco
comer, chupar, chapar
mergulhar de cabeça em qualquer profundidade que lhe falta
não lhe falta nada, jovem caiçara.

não lhe falta nada.

caiçara, velho lobo do mar
dente fino, pente forte
camisa aberta, sal, areia,
a guia guia no inifinito ao redor de seu pescoço
onde habita o peito, o pelo, o coração, a garganta, a lingua e as rugas.
tua real força reside nas mãos firmes, nos olhos duros, na alma calejada.
o cabelo cheio é ralo contra o vento e o vento é constante
caiçara é presença distante

como o som de árvores balançando ao vento numa soneca no início da tarde
em algum lugar ancestral dentro de mim.

quinta-feira, março 12, 2020

Você sabe como é
Eu provo até café 
Pra adoçar a amargura que é a saudade que eu sinto da minha mulher

Os dias não passam
As horas amassam
Os ponteiros
Tão grande é meu desespero
Os instantes se estendem desnecessariamente 

A barriga, cheia de tanto comer,
cria espaço pro vácuo do sofrer
Uma ansiedade imensa, non stop, inédita.
A cabeça vazia com tanto pensar
Pois hoje tudo se concentra e se expande e se materializa exclusivamente naquela parte do meu cérebro que chamo de coração. E em nenhum outro lugar. Meu pensar não é senão sentir.

Eu ouço Dido pra dormir
Com a mão embaixo do seu travesseiro
Buscando com certo desespero você.
E até convido de bom grado a insônia 
achando que é uma forma de te ter aqui.
E revisito nossos medos e segredos
Pra poder sonhar acordado
Que estaremos juntos em breve
vencendo tudo: passado e presente.
E a felicidade será vivida com tanta urgência e verdade e vontade
que essa ausência que você provoca
será apenas uma lembrança de algo que foi e não mais está lá. Como uma borra de café, que odeio, mas no momento é, junto da saudade, o que me aproxima de você,  minha amada mulher.

quarta-feira, março 04, 2020

Venho pensando e filosofando há muito tempo sobre o caos randômico que é o universo e sobre a predileção humana à cultura narrativa; e o quanto isso é danoso. Mas acho que eu não estava com o compreendimento total da coisa - e talvez não esteja ainda; mas mais perto.

Negócio é o seguinte: o universo sim é randômico. As coisas acontecem porque elas acontecem. Não tem um "motivo", uma "razão", tipo Deus/sorte/bla bla bla está mandando isso pra que eu faço isso e aquilo. Não.

MAS... nós, os seres humanos, somos sim seres narrativos.

Por que? Porque fazemos as coisas pra obter um resultado. Agimos como agimos POR um motivo e PARA obter um resultado. Nós sim nos guiamos pela relação de causa-e-consequência. Fazemos o que fazemos por um motivo; não por absoluta randomicidade. A não ser quando a pessoa é psicopata ou esquisofrênica - ou seja, psiquicamente desprovida de lógica; randômica.

E esse desequilíbrio entre o que acontece dentro da gente e o que acontece fora da gente é que causa na gente ansiedade e deixa a todos doidos. "Por que que o mundo não responde de acordo com a forma que a gente faz as coisas, de acordo como a gente se movimenta?", pensamos. E aí, o que é foda, que nos causa ansiedade, é que a gente fica preso a isso. A gente começa a pensar "Ah, eu tenho que fazer isso pra me garantir aquilo" e "O mundo vai me dar isso por causa disso" (ou "O mundo não me deu isso por causa disso").

Mas o lance é que tá errado. A gente tem que tá em paz com ambas esferas e achar um meio termo entre elas para habitarmos. Entender que a gente é narrativo, mas que o mundo não.

Porque senão: (i) por um lado a gente fica refém - ou dos nossos desejos ou dos nossos medos. E eles passam a guiar a gente. E isso tá errado. Nem o desejo nem o medo devem nos guiar. O que deve nos guiar é a nossa consciência. É fazer o certo, fazer o ético, fazer o bem. Não pra si, mas pra todos. Porque fazer o bem pra todos, vai ser fazer o bem pra si.

E aí - entendendo que cada um está num momento diferente de sua escala de evolução individual - fazer o bem pra todos; mas principalmente pra aqueles que são próximos de você e vibram positivamente pra você. Pois se doar pra quem está muito perdida e não te dá em troca, acaba sendo gasto de energia em vão. Gasto de energia que deveria ser dado para as pessoas que estão mais próximas de você; pois são essas que temos que fazer feliz, para, assim, você estar feliz também; pra, assim, você estar em paz.

E aí, (ii) por outro lado, também não ficar tentando controlar e manipular tudo. Porque o mundo não vai dobrar à sua vontade, independente do quanto você costurou narrativamente à seu favor. Não interessa o quanto você seja bom em controlar e manipular o mundo externo; não interessa o quanto você tente: uma hora sua construção vai desmoronar e vai ser muito ruim, porque você nunca esteve buscando a coisa certa. E "isso" que vai desmoronar é tanto o mundo exterior à você, que vai cair em cima dos seus ombros, pesando em você, OU internamente; o seu próprio "ser" vai desmoronar.

Porque é água e óleo.

O mundo externo e o interno, o randômico e o narrativo, não vão virar uma coisa só. Não importa o quanto tentemos. Temos que aprender a viver entre eles. Senão o corpo entra em parafuso. De uma maneira ou de outra, se você não for pro meio, pro ponto de equilíbrio... você e tudo que você tentou construir morre.

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Você, Jovem Roteirista, que quer entender o que é o "All is lost", finalzinho do segundo ato de um roteiro... é esse sentimento que eu to de desistir de tudo isso que fiz, vindo pra cá, mas isso não é uma opção, pois o mundo do primeiro ato não mais existe "you can never go home again..." voltar pro Brasil de Bolsonaro, rastreamento de esgoto pra guerra das drogas, rock retirado de concurso cultural porque "leva ao aborto e ao satanismo", milícia controlando a porra toda?

É esse, o momento onde na vida real a pessoa desiste da porra toda e toma drogas até morrer, mas no filme um sinal divino aparece e o cara magicamente tira forças do cu e tudo que ele se esforçava antes dá resultado e ganha o que quer que ele queria/ou melhor.

Mas também quem sou eu pra te falar alguma coisa? Only accomplished medium stuff. Welcome to the medium place; where you're constantly questioning "what can I do differently to make it happen?", where it's never awesome enough for you and others to feel like you made it, never awful enough for you to say "yeah, just give up; be in peace with your mediocrity because this is not for you".
Not great, not terrible.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

I could never kill myself. I'm a creator.
I do the opposite of destroying. I make things. I don't know how to end things and am not interested in learning that. My thing is life, my thing is the new that's always transforming and continuing new. 

terça-feira, dezembro 31, 2019

Sabe, esse último post era um post antigamente. Hoje em dia, com alguma edição pra reduzir o número de caracteres (ou transformando em thread) é um tweet.

Falo isso pra ser meu quase anual post comentando/justificando a quantidade de posts no ano. Ao mesmo tempo que aumentando a quantidade de post no ano. É, virou tradição, substituiu o post-poesia (geralmente sobre o verão).

11 posts, já foi bem pior, mas ano passado com 19 parecia que ia animar o negócio aqui e... simplesmente não rolou. Polling Life me ocupou todo o tempo criativo na primeira metade do ano, fora todo o estresse emocional de tempos Trump e Bolsonaro, mais trabalho e dramas pessoais. Fora a existência supracitada do Twitter e outros meios de uso da minha criatividade.

Ano que vem vai ser melhor ou pior? Difícil dizer. Nosso plano de viver uma van life pode tanto fazer com que eu nunca mais escreva aqui, ou me dar tanta qualidade de tempo que eu escreva muito aqui. Fora que, a 3 anos de distância do artur fazer 20 anos de existência (uau) eu vou ter que começar a olhar com carinho pro catálogo porque quero comemorar isso fazendo um livrinho com os melhores posts dentre os 550(!) posts que existem HOJE! Imagina daqui a 3 anos?

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Gatos fazem um barulho muito esquisito. O ronronar deles. É meio robótico; já reparou? Papagaios fazem sons esquisitos robóticos também; não parece que ele tá falando e sim que tá "reproduzindo" uma gravação. Então fiquei pensando... quem garante que ambos não são robôs? Você já abriu um gato ou papagaio pra ver se não é um robô da CIA te espionando?

É assim que:
( ) pensa a mente de um psicopata
( ) idéias de filmes surgem

domingo, dezembro 29, 2019

Não sei nem qual adjetivo usar pra pessoas que passam a vida toda fazendo/sendo um merda e aí chega no final (ou quando passa por um aperto que faz parecer ser o fim) e faz o arrependido.

Minha irmã me manda uma mensagem de natal e pede pra que eu ligue pro meu pai, pois ele teve uma arritmia e uma ordem de despejo e não sei o que, pedindo pra eu relevar tudo e ligar pra ele blablabla.

Eu decidi que não. Não dessa vez. 2018 foi um divisor mesmo.

Eu passei a vida toda batalhando e denunciando os jeitos do meu pai comigo. E com a gente, com todos os filhos. Mesmo não sendo o mais velho, fui o primeiro a notar isso e reclamar. Aos 12 anos, fiquei um tempão sem falar com ele. Só conheci minha irmã mais nova quando ela estava prestes a fazer 1 ano.

Num momento eu entendi e relevei seus defeitos. Fiz as pazes com a forma como ele é, com o foco na carreira (nele mesmo) acima dos trezentos filhos que ele fez muito provavelmente com o intúito de controlar/prolongar a relação com suas companheiras cansadas de serem preteridas pela carreira e controladas pela sua forma autoritária (e machista). Porque o esforço (já tá errado aí, né?) pra praticar a paternidade era zero.

Fiquei naquela de me ater às coisas boas. Focar na contribuição artística ao mundo, grato pela predisposição artística repassada geneticamente (se é que isso existe), o papo maluco bom (mais próprio a um amigo do que um pai) e outras coisas que desconfio que trocaria fácil pela tão mais rara relação pai e filho. Nessa vibe de enxergar o lado bom das coisas, isso tudo me deu distanciamento e anticorpo pra ficar super bem. Eu estava fora da zona de controle dele, meu próprio homem, independente. Podendo me nutrir do que era bom e não esperar algo que não viria.

Mas aí veio 2018 validando todos os ressentidos do Brasil. Se antes ainda havia um pouco de vergonha que censurava os impulsos mais escrotos do meu pai, eles não tinham razão pra ser agora. Ele, pimpão, recolocou as mangas de fora, retrocedeu tudo. Não comigo; moro longe e, como disse, sou independente há muito. Mas causou bastante dor aos meus irmãos - mais próximos a zona de controle dele - e aí foi fácil e natural retroceder a relação e voltar à indiferença que havia antes.

E nem fiz nada de mais. Sou fiel à noção de que o contrário do amor não é o ódio e sim a indiferença. Só risquei da minha lista de preocupações e considerações o "se importar" com ele e minha relação com ele. Aí, ano passado, houve um drama porque eu não mandei mensagem no Natal - o que por si só já era hipócrita, pois (i) isso era exatamente uma das coisas que eu reclamava que ele, como pai, não fazia; ligar no aniversário e outras datas... enfim, "procurar", mostrar interesse e (ii) é uma via de mão dupla; porque ele não ligou? Seu telefone não é bloqueado no meu.

Depois, já em 2019, quando do acidente de carro, ele falou, pelo meu irmão, algo tipo "ah, não sei se ele quer falar comigo, então deseja aí melhoras pra eles"... tua neta e nora há 7 anos tão no hospital e você tá com medo de ouvir um "obrigado, mas não quero falar com você" (que nem aconteceria; em momento fragilizado, eu ia gostar de ouvir palavras de conforto, mesmo não o tendo em mais alta conta... quem não gosta de palavras de conforto? quem não gosta de bondade?)

Enfim... com toda essa folha corrida, ironicamente, agora é pedido pra que eu seja "the bigger person" e poxa, liga lá pra ele. Faça ele, que passou a vida inteira sem se esforçar um pouco pra fazer você se sentir bem, se sentir bem que você ligou e "perdoou" seus erros. Faz você o esforço e não ele. O devedor é que recebe.

Até na sua redenção você quer fazer os outros se sentirem mal? Tenho EU que engolir todos os sentimentos pra não sentir culpa de algo que é tudo coisa que VOCÊ tem que processar? É impressionantemente "on cue" com tudo que você representou nessa área da sua vida. Não houve um centímetro de mudança. Você teve tudo que você se predispôs a fazer de verdade.

Mas pós 2018 eu me livrei das amarras sociais. Eu não to mais no chat da minha outra família e não procuro mais eles também (embora tenha muito mais carinho histórico por eles e, numa situação igual a essa, agiria diferente com eles), "amigos" ficaram pra trás também, e não faço mais sala pra quem é legal comigo, mas um escroto pro todo.

Então pensei, ruminei, sofri... decidi que não ia mandar mensagem não. Ainda assim, se ele ligasse, eu falaria (friamente); não sou um escroto. Tenho compaixão e empatia. Mas não ia ceder controle pra ele, não ia eu validá-lo. A culpa e o choque são educativos. E, francamente, são as únicas armas que a gente tem às vezes.

Não cola comigo "mas ele é velho". Exatamente. Teve esse tempo todo, bando de tentativa e erro pra ficar sábio e ficou velho. Agora que a vida parece no fim, se vê sozinho, vê tudo que fez errado... e nem o esforço de buscar redenção faz? Tem medo de ouvir um ou dois "não", depois de uma vida inteira o dando pros outros? Snowflake. Não entendeu nada do trajeto de sofrimento e humildade do Jesus que ele (há pouco tempo, really) passou a se fiar. Se não tivesse parecendo no fim da vida... teria esses arrependimentos fajutos? Do que adiantam sem ação?

Com tudo isso, decidi com o pé atrás não mandar mensagem. Minha mãe, mesmo com todo o histórico, sem gostar nem um pouco dele, disse que eu deveria ligar. Ficava com pena e tal. E também com medo de, se algo acontecer, eu me sentir mal. Mas pensei na hora e venho pensando e achando mesmo que (i) vaso ruim não quebra fácil. O cara tá todo bionico, ja teve mil problemas de coração e tá aí. Meu avô era a mesma coisa. E (ii) que nunca, nunca, nunca podemos nos sentir culpados pelas opções dos outros. Só somos responsáveis pelas nossas ações e, sim, elas podem refletir nos outros, há que se ter responsabilidade nas nossas ações. Mas a gente não é Jesus pra ficar se martirizando pelos outros; temos que cuidar de nós mesmos. Mais e mais eu percebo o quanto essa vida é tudo que tenho e quero poder vivê-la da maneira mais prazeirosa possível. Preservando minha saúde mental e espiritual. Valorizando e retornando a quem me faz bem. Gastando minha energia com isso. Quebrando o elo com o que me faz mal, dando-lhes a chance de parar de fazer... não quis agir em cima disso? Então faço eu mesmo.

Vivendo as minhas culpas, os meus acertos. Os meus erros, meus consertos. Vivendo a minha vida e não a dos outros. E, apesar de eu ter vindo da sua vida, você hoje simplesmente não faz quase diferença na minha. O que tudo bem, pois eu por muito também não fiz na sua. Embora não seja um troco, agora você sabe como é.

E não há qualquer ressentimento enquanto digito isso. Pra provar isso, uma honesta consideração de quem pode te ensinar, pois já esteve lá: se agora, revendo a  sua vida, você acha que eu fiz parte da sua vida como um arrependimento... primeiro, poxa, sinto por você. De verdade. Mas é melhor fazer as pazes - como eu fiz há muito - que só pontes superficiais podem ser feitas entre nós agora. Não acho que há muito tempo pra criar algo realmente forte. A urgência é só sua. Tenho mil outras prioridades com gente que sempre esteve lá por mim. Aceita isso - aliás, agradeça isso, pois minha irmã, por exemplo, teve muito menos gente assim com ela - e passa adiante. Use seu talento e reputação. Tente falar com quem tem menos histórico contigo, mostre seu arrependimento a essas pessoas, aponte a elas tudo que você faria diferente se pudesse, pra que ela não cometa o mesmo tipo de erro que você cometeu. Cuide de quem ainda espera e se nutre do seu amor e atenção.

E vá em paz. Está tudo bem. 

sábado, outubro 26, 2019

To gostando tanto de ler o livro do Melvin (Estrada - Mil shows do Melvin), que vou copiar e fazer um post no mesmo estilo.

Assim, guardadas as proporções, né? Fiquei fazendo as contas na cabeça e imagino que fiz entre 50 e 100 shows - mas mais perto dos 50 que dos 100. A maioria com o Canvas (mas nem sei dizer quanto... na casa dos 20? 30?), Weezer cover (uns 7?), Carbona (uns 4 substituindo o Melvin?), The Invisibles (2 substituindo o Rubinho), um show só do Reverendo, um show com o Rafa Cosme (e a Olivia Develly numa musica!) tocando o Back 2 Basics do Carbona (foi um momento histórico) e outras ocasiões tipo London Burning All Stars(2), sarau do Notre Dame, show de fim de ano do Antonio Adolfo.

Mas pro meu pequeno currículo, depois de muitos anos tempo sem adicionar nada, nessas doideiras da vida, acabei adicionando alguns shows com a lenda do underground carioca Mauricio Baia. Conheci ele aqui em Miami, pois é casado com a Kathleen, que é amiga da Mari Britto, e por isso, quando viemos há 3 anos pra ca, conhecemos a irmã dela, Chanda. Enfim; historia doida ne? Pra melhorar, ele já trabalhou com meu pai e com a Roberta. Enfim... ficamos amigos, ano passado só, se escorando um no outro enquanto víamos o Brasil eleger Bolsonaro. No dia do primeiro turno da eleição fomos lá pra casa dele pra respirar um pouco e lembrar que nem todo mundo era cruel. Aqui, 87% dos votos favoraveis no primeiro turno, é difícil de lembrar que nem todo mundo é cruel.

Levou um tempo até ele descobrir meu passado musical, apesar da herança familiar. Apesar dele, com certa razão, falar pra eu parar de dizer isso, não sou musico. Eu sei o quão difícil é e o quanto de gente mais talentosa que eu tem por aí nesse meio. É mais uma brincadeira, um amor que tenho. Que mesmo assim, na brincadeira, vivi um bando de hit and miss e nunca cheguei muito a lugar nenhum (seja por culpa minha ou não, quando eu tentei a vera ou quando fiz quase de sacanagem)

Mas enfim... quando comprei um baixo usado, ele se empolgou e falou "vem tocar comigo, man". Marcou um show num lugar que tava abrindo, ensaiamos por vária semanas as musicas que ele gravou no seu ultimo disco "Bossa in Dylan", clássicos de Bob Dylan em versão bossa nova. O show seria só eu no baixo, ele no violão.

Foi o primeiro de uma série de shows inusitados. Neste primeiro, ao chegar ao local, "Black Market", em Downtown, estava passando a semifinal(?) da Copa America, entre Colombia e Chile e tinha uma galeria colombiana no bar, no primeiro andar, vendo o jogo. O show seria no segundo andar, após o jogo. O lugar era maneirissimo. Bem bonito, recém aberto. O problema é que a Colombia perdeu(ou eram chilenos; o lance é que o time deles perdeu) e basicamente ninguem ficou. O show ficou bem vazio, porque o lugar era gigante. Fora as sequelas do Baia, que esqueceu de avisar o cara da casa de que eu ia tocar também. "Achei que era só voz e violao!". Resultado? Não tinha onde ligar meu amp. Teve que fazer uma gambiarra e ligar meu baixo em linha. Resultado? Não ouvia o baixo, que saía em algum lugar no PA da casa grande. Se ouvia algo, era com delay. Teria que tocar no feeling, torcendo pra estar saindo direito aquelas musicas que caminham pra caramba e tinha conhecido há umas 2 semanas. Não parou aí... ele fez um setlist, pra chegar na hora e mudar tudo, pular musica e de repente, do nada "Queria convidar minha querida amiga Isabela do Natiruts(!) pra cantar uma musica aqui comigo" e eu "oi? ninguem me avisou isso! como assim? que musica?" e fazer meu melhor pra tocar algo que nunca toquei na vida, sem me ouvir, com a mina do Natiruts(!!) que brotou ali na hora, em Miami.

Grande Baia!

Depois desta louca experiência, fizemos outros "shows". As aspas porque foram aqui em casa, pra Luisa e pra Kathleen e toda a vizinhança, outra vez pros amigos no meu niver, e uma vez só pra Dora, filhinha dele, que pediu pra gente tocar o show inteiro pra ela. Sim, vou contar tudo isso como show; o Melvin conta bloco de carnaval, então eu conto quando a gente mete o setup dele da Behringer com microfone e caixa de som e abre as portas da varanda pra Edgewater inteiro ouvir.

E aí chegamos à esse show de hoje.

Eu dei um bolo nele uma vez, porque ele apareceu do nada "bora tocar amanhã numa tattoo shop de um amigo" e no dia ele surgiu com varias musicas dele (e não do Dylan) pra tocar e eu falei "cara, toca sozinho; é melhor, vou fazer merda". E aí combinei com ele de pegar as cifras, pedi pra ele selecionar "as mais queridas" (basicamente o DVD "Baia e o Circo" dele) e me comprometi a aprender pra que quando ele fizesse o louco eu conseguisse embarcar ehehe E aí foi essa semana "man, vamos fazer um show beneficente nessa sexta la em Key Biscayne!". Dessa vez eu falei "bora". Ainda mais sendo beneficente. Bora, por que não?

Não seria o Baia e eu se não fosse muito doido. Era um clube de golfe, super chique. Chegamos, montamos nosso som. A ideia era tocar no comecinho da festa, warm up pra que as pessoas ficassem no hall de entrada - onde fazia-se as doações beneficentes. A musica ao vivo ali ficava tanto como "pano de fundo", porque era um publico que não se importava muito com isso, mas também ajudava a não ficar aquele silêncio awkward. Fazia com que eles ficassem conforáveis ali, conversando e estando expostos à área de doação. Então show. Nosso papel.

Mas sem qualquer estrutura. Montamos ali no chão mesmo, ligando as coisas numa tomada atrás de uma árvore... um medo danado do vento derrubar as caixas foi substituido pelo medo da chuva, que não tardou a vir e nos fazer desligar tudo e montar um pouco mais pra dentro da tenda. Isso e os convidados chegando...

Ah... eu falei que era uma festa de halloween?

Sim. Eu toquei todo de preto, com camisa do livro do Melvin e uma maquiagem nos olhos e na bochecha um desenho tipo de cicatriz frankenstein. Baia com camisa e chapeu de espantalho.

E aquela questao de não ter nunca tocado com o Baia as musicas. Eu tinha ensaiado sozinho. Uma vez, porque a vida tem andado bem dificil por aqui. E algumas que ele botou no setlist, adivinha? Nunca tinha ouvido. Peguei a cifra de "Tu" (um xote delícia dele que anda pra caramba) e coloquei de cola ali , com uma parte embaixo do amp. Os convidados - tenho que dar pra elas que estavam bem fantasiadas - não podiam se importar menos que tocaríamos ali.

E aí fiquei pensando...

Baia, essa lenda, com décadas de estrada, tendo tocado no Rock in Rio, Montreux, lotador contumaz de Circo Voador, tocando ali, amarradão, ACIMA de tudo isso... e eu vou me preocupar em saber as notas ou nao?

Eu vou me divertir e aproveitar o momento e desfrutar de tocar com essa lenda e ser parte de um momento que é marcante não pela glória mas por quão pitoresco é. E mais: vou fazer ser ainda mais pitoresco. Resolvi que ia entrar no personagem halloween e passei a tocar encarando as pessoas, com os olhos esbugalhados, a cabeça arqueada pro lado, meio cachorro, meio Edward Mãos de Tesoura, e do tronco pra baixo o mais ereto e imóvel possível.

O que suscedeu foi um showzão. Especialmente a sequencia inicial de You're a big girl now / Knocking on Heavens Door / Eus / Fulano, Cicrano e Beltrano / Lembrei / Baia e a Doida. Toquei lindamente, deixei muita gente sem graça, fiz o Baia rir e foi show. Acho que foi o melhor show que fizemos juntos, talvez exatamente por não estarmos nem aí pra tudo. Pro "nome', pra "imagem", pro "sucesso". O máximo rock and roll que existe. Na hora de "Tu", que eu tinha deixado a colinha, é claro, tinha que dar merda. O vento bateu, um guardanapo cobriu a cifra, e, nao obstante, Baia ainda pulou uma parte da musica hahaha

Enfim, terminamos com "Anunciação" do Alceu, já rendendo algumas mulheres à dança. Quando o show acabou e eu revivia meus tempos de roadie do Netunos (adiciona uns 15 shows aí pra eu ficar mais próximo de 100!) eu fiquei pensando que são esses os shows que dão historia. Que se o Baia fizesse um livro sobre sua interessante historias, essas coisas renderiam minha participação lá. Que se tudo saísse bonitinho, não tinha muito o que falar. Perfeito é boring. Os perrengues, o inusitado; são esses os tijolos que formam a estrada. E essa tem sido a minha. Cheia deles e eu teimo em seguir nela, sem parar, sem ser parado, sem aceitar o fim da linha.

Porque como diz o Baia o tempo todo:
"É caminhando que se caminha".

domingo, setembro 15, 2019

André foi meu primeiro melhor amigo. De alguma maneira foi meu único.
Antes dele, tive/tenho alguns melhores amigos que eram na real amigos do meu irmão, de tal forma que, embora os amasse muito, não seria justo dizer "meu"; no máximo "nosso". Tiveram alguns outros do maternal que eram "melhor amigo" por pressão social, tipo mães ou professoras determinando que éramos melhores amigos porque passávamos mais tempo juntos do que com outros coleguinhas; mas eu não levava a amizade para depois, pro além-escola, pro âmbito particular. André foi a primeira grande amizade que fiz sozinho. Quer dizer: que fiz junto com André; nenhuma amizade se constrói sozinho. Conheci ele na terceira série A do Notre Dame. Em pouco tempo nos conectamos através de X-Men, Mariah Carey e talvez, lá no fundo, filiação de músico ex-famoso. Começamos a frequentar um a casa do outro - eu mais a dele que ele a minha, porque a casa dele era muito mais legal; com dois irmãos, dois andares, vista pro colégio, misto quente ruim, piscina com infestação de rolinha (e todas as piadas sexta-série que conseguíamos fazer em cima disso), play pra jogar bola, piano, muito videogame, filmes que fazíamos nós 4 (e às vezes convidados) cheio de efeitos especiais engenhosos como filmar a tela do computador, onde, em cima do feed de outra câmera, Rodrigo desenhava "ao vivo" o raio que saía do olho do Ciclope (André) pra matar o Magneto (Thiago) e todas as tecnologias ponta-de-linha que nunca deram certo, como o laser-disc, câmera hi-8 e Dreamcast. Fora as festinhas do colégio que aconteciam lá. Eu vivi muitos momentos de formação de personalidade naquela casa e com aquele amigo. Dividíamos um ou outro quase-melhor amigo que, generosamente, convidávamos a entrar naquela nossa conexão de melhor amigo - apesar de por algum motivo curioso ele me chamar de Eduardo e eu ele de André e não por apelidos, como todo melhor amigo normal faz. Aquela confiança saudável de melhor amigo, que no olhar sabe que nenhuma outra amizade é tão especial quanto aquela. Éramos sempre nós dois, de maneira que quando a vida nos fez estranhos - quando André repetiu a primeira série do 2 grau e mudou de escola - eu simplesmente nunca mais tive um "melhor amigo" nesses moldes. Passei a ser plural e no máximo classificar melhor amigo no plural, deixando o todo se dissipar em todos, dizendo que eu não tinha "um melhor amigo, mas vários". Ou então falava que não tinha melhor amigo at all. André foi meu último melhor amigo. E o próprio conceito de "melhor amigo" virou uma coisa de criança - na melhor concepção da palavra, tal qual a carinha dele, que, mesmo bombadão, com os cabelos precocemente todos brancos, parecia um garotinho: doce, alegre, inocente. Melhor amigo virou algo utópico; um conceito a ser buscado, mas nunca atingido. Com ninguém conseguiria construir algo como o fiz com André. Ainda que não tenhamos nos falado muito desde então - esbarrões e mensagens eletrônicas bissextas (no entanto, sempre afetuosas) - nossa vivência compartilhada de anos tão formativos de nossas identidades faz com que eu SEMPRE remeta a André ou algo que vivi com André. É história que não é necessariamente sobre ele; mas ele tava junto. É referência que nem tem conexão a ele em si, mas tive acesso junto à ele; na casa dele, ou consolidada em conversa com ele. Uma presença constante, ainda que em alguns momentos invisível ou imaterial. E isso vai continuar acontecendo agora. Não há porque mudar. Você vai continuar vivendo através de mim. Até que chegue a nossa vez, estaremos todos que dividimos qualquer título contigo - mãe, pai, irmãos, primos, melhor amigo.... - te mantendo vivo através da perpetuação de nossas existências, profundamente marcadas pela sua.

sábado, setembro 07, 2019

Que conste em ata que no dia 7 de setembro de 2019, eu declarei independência do Brasil. 
Dos EUA. Declarei independência de qualquer convenção geográfica. Eu sou do mundo e não quero ficar em qualquer lugar que seja escroto como esses vem sendo. Declaro independência do medo. Não mais vai me privar de usar minha voz, de me botar pra agir. Saí do Brasil vendo o que ia se tornar e vim pra cá para uma outra convenção de país. Se na próxima eleição não se confirmar ter sido apenas um longo porém finito desvio, nem quero ficar. Vou pra outro lugar que coadune com minha idéia de humanidade. E se for estragado também, vou pra outro e outro, não fugindo, mas descobrindo. E escolhendo. E levando comigo toda a força que já construi e vou construir agora que me libero de amarras que não mais me prendem a terra nenhuma. Casa? Moro em mim e nos que acreditam em mim. Declaro também independência de uma culpa e subserviência ao sistema todo que faz isso acontecer. Minha fidelidade é com a criação e a empatia e comigo e com os meus. "Nome sujo"? Dívida? Não é por aí que se mede. Dinheiro não é o meu Deus. Meu Deus é o criar. Arte, conexão, bons sentimentos e lembranças.
Ontem tive um clique, uma mudança de visão. De que nada disso tem importância. De que o que importa é o único sentimento que desejamos mais que o amor, pois é precípuo ao amor, prioritário e necessário para que chegue-se ao amor: a liberdade. Algo profundo mudou em mim e nada mais será o mesmo.

quarta-feira, julho 24, 2019

Quando falam (e tem se falado muito em contextos de duas opiniões divergentes ) "aceita que dói menos"... dói menos em quem?

Neles que falam isso, né? Tipo, tem um "em mim (pois não consigo lidar democraticamente com visões contrárias; me machuca)" oculto no final da frase. É uma súplica de clemência pois não conseguirão manter isso no campo do debate de idéias. Aceite, pois eu não consigo. Seja a pessoa mais madura, por favor, e me deixe ganhar essa.

Porque, se não, se significa que aceitar o que quer que seja irá doer menos para a pessoa que não aceita o que quer que seja... de onde eles tiraram essa idéia? Há um conhecimento de causa disso? Estaria, quando fala "aceita que dói menos", o interlocutor dando um conselho carinhoso e preocupado, de quem já viveu aquilo nos sapatos daquela pessoa, lutando contra aquilo e, finalmente, desistindo, pois era muito doloroso pra ele lutar contra aquilo e não conseguir convencer as pessoas de sua verdade? Quem fala "aceita que dói menos" seria, então, alguém frustrado, conformista e até enrustido, que jogou a toalha frente à complexidade da luta e dá o conselho à pessoa como alguém experiente que está menos angustiado tendo aceitado a mediocridade?

Ou é apenas uma direta ameaça autoritária para que a pessoa aceite, entube, se renda e assimile, pois, se resistir, ela irá se machucar pelas mãos dela ou de seus colegas?

A verdade é que pouco importa.

A lingua fala. Literalmente. Mesmo os que não a dominam - talvez até mais os que não a dominam - acabam sendo entregues por ela, quando nos debruçamos no que se é dito além do que é falado.
 As 3 opções de intenção do "aceita que dói menos" demonstram apenas estágios do ciclo de um derrotado. Seja o ódio do autoritário, a ignorância do covarde ou a fraqueza do medroso.

Em suma, quando alguém usa "aceita que dói menos" em contexto de confronto retórico, imediatamente atesta e destaca seu interlocutor como o minuendo da equação. O papel do falante será apenas o de tentar, futilmente, subtrair: sendo um zero como são, o resultado no máximo será a manutenção de quem você é. Não somarão nada. É tempo perdido.

Leia "aceita que dói menos" e traduza em "siga em frente e além, que esse não vale a pena".

domingo, julho 14, 2019

Você também sente às vezes que vive no momento finalzaço do Capitalismo? Tipo late late stages?

Eu sinto muito esse sentimento através da publicidade. Sem ela querer - imagino - acaba sendo muito reveladora do momento fucked up que a gente tá vivendo.

Agora há pouco, por exemplo, eu vi um bloco comercial inteiro que era estandarte disso. Primeiro vi uma parada de companhia aérea dizendo "Make the whole world your office!" e tipo... really? Que merda. O mundo foi reduzido a isso? Ele pode ser tão mais que isso... Depois, um Stella Artois que começava num pé feminino à beira d'água com uma Stella. Aí a camera abria e mostrava que a mina tava era numa piscina Tony, com maior barulheira de cidade, numa varanda de um prédio. Aí dizia "Vacation is how you see things" ou algo do tipo. Até tinha a boa inteção de falar "faça de qualquer momento um momento agradável", mas só revela também esse state of mind de "always be closing" e o fato de que no mundo de hoje é impossível desligar, ficar 30 dias seguidos de férias; você tem que fazer cada momento férias, porque de resto você é um escravo do capitalismo e da "produtividade". Por fim, vi um comercial de várias serie novas no Hulu com o slogan "say goodbye to your free time". How is that a good thing??

quarta-feira, julho 03, 2019

Dá uma tristeza gigante quando você se despe de todas suas esperanças e analisa friamente o Brasil.

Toda essa parada que tá rolando com a política. A verdade é que, apesar dos últimos 20 anos de progresso, foi muito pouco. O que são 20 anos de evolução pra 500 de desigualdade? O Brasil é um país MISERÁVEL. De terceiro mundo. Com a maior parte de sua história enaltecendo regimes autocráticos, escravagismo, militarismo etc.

Então o entendimento é quase impossível de ser alcançado. Não só na Vaza Jato: qualquer defesa de poderosos acusados de algum erro é completamente torta e só reforça os seus crimes, dando razão à acusação... mas ninguém tem nem a inteligência de perceber e processar isso. É desesperador.

Exemplo:
Quando Moro começa a fugir das perguntas sobre a Vaza Jato dando os dados da Lava Jato, mostrando seus números (tantos presos, tanto dinheiro retornado aos cofres)... ele só faz reforçar o que lhe acusam: ser partidário.
Fosse o Dallagnol falando isso, ok. Mas o Juiz NÃO é parte do time. Moro não é parte da Lava Jato; Moro JULGOU a Lava Jato. O entendimento do público de que ele é a Lava Jato (que ele adora) já mostra que tudo está errado, pois ele é (ou deveria ser) um juiz, imparcial. Usar como resposta, como escudo, as boas coisas que a Lava Jato fez, basicamente dizendo "os fins justificam os meios", faz dele partidário, parcial, viciado. Um Juiz não poderia justificar decisões pelo bem geral, através de uma ação ilegal.
Seria justo um procurador botar na justiça um milionário e, apesar de nada de errado com ele, o Juiz determinar que vai tirar todo o seu dinheiro? Vai ser bom para o geral, pois o dinheiro dele vai ser transferido pro país... É injusto uma pessoa segurar muito dinheiro quando tanta gente passa fome? Injustiças são legais. Moro é uma fraude cristalina. Suas ações, suas reações, suas defesas; todas confirmam a tese de que cometeu um crime, todas desabonam a hipótese de que não fez nada de errado.

Quando Neymar solta na internet conversas e fotos da menina que o acusou de estupro, faz o mesmo: só mostra que não entende o conceito de "consentimento"- princípio básico do estupro.

Então é muito difícil. Como você fala que isso tá errado pra pessoas que não entenderam porquê é errado permitir um cara que celebra a memória de um torturador - não de outro país; daqui, da história ao vivaço daqui, do cara que torturou a presidente do Brasil e diversos outros - se tornar presidente do país? Se o Dallagnol confessasse que falou tudo aquilo, as pessoas acreditariam e teriam a grandeza de "mudar de lado"?  Penso o quanto adoramos falar "é a palavra dele contra a sua"convindo basicamente que só com provas se julga algo de forma justa, quando na verdade os brasileiros acreditamos em maioria que uma palavra contra a outra vale algo sim e, no caso hipotético do Dallagnol confessar, era capaz de o Moro usar a carta da "palavra dele contra a minha" e ganhar apoio de grande parte da população.
 
O investimento de identidade nessa manipulação política comandada pelas grandes oligarquias e corporações feita nos últimos anos foi muito grande e, ainda mais com o reforço das midias sociais - pesadas recompensadoras emocionais com likes, seguidores etc. - parece muito pouco crível que as pessoas estariam dispostas a virar o espelho pra si mesmas, ouvir a voz da razão e agir de forma imparcial, reparando que elas não são a lava jato ou o que quer que seja e podem rever os conceitos e fazer o certo, condenando alguém que parecia estar fazendo o certo, mas, na melhor das hipóteses, da forma mais perigosamente errada possível.

Os Brazileiros parecem determinados a morrer nesse Mor(r)o.

sexta-feira, maio 17, 2019

Lembro de achar tão legal quando iam empresas no Fluminense vender apps e outras coisas e diziam que o custo seria nenhum para o clube; tudo que eles queriam era base-de-dados. Informação é dinheiro! Claro, como poderia não ser?

E isso se expandia quando se falava do público consumidor também! Você baixava o app de graça em troco de dar seu e-mail, responder umas perguntas. Se quisesse o app completaço ou conteúdo exclusivo etc. aí você pagava mais, mas só pro básico que a maioria precisa, era só dar essas infos.

Esse tempo passou.

Agora, de dropbox à jogo de celular, das coisas mais uteis às mais inuteis... acabou o amor. Voltou a ser sobre dinheiro. Você só tem acesso se pagar. Fora "direitos" tirados, como redução de benefícios que você desfruta há anos, caso não faça upgrade pra conta paga. Imagino que ninguém mais chega "na amizade" no Fluminense e outras empresas que possuem muitos adeptos também.

A informação deixou de valer dinheiro? Claro que não. No entanto, a triste e assombrosa constatação que se faz é que eles não precisam mais; eles já tem todas as informações que precisavam. E se havia gente que não tinha essa ideia de "nem sempre o consumidor tem que pagar pra consumir" apenas como discurso... essa gente foi usada e engolida por quem sempre viu o consumidor como produto, o povo como gado, num deslocamento moral-social disfarçado de distanciamento crítico.

terça-feira, março 05, 2019

Seria o meu maior defeito não aceitar a minha mediocridade?
Defeito, karma, sina... o que seja.
É bonito por um lado mirar na grandeza, mas se você não pode chegar lá - e tudo diz que você não pode; ninguém tá interessado real (e em número suficiente) no que você tem pra dar - não é uma teimosia contraproducente (pra não dizer danosa) pra caralho? Por que você não aceita levar uma vida mediana, cedendo seu tempo pra outras coisas e pessoas que cativam mais as outras e movimentam mais o mundo ao invés de ficar batalhando pra te verem do jeito que você se vê?
Fuck you, Vicent Van Gogh.

quinta-feira, dezembro 27, 2018

Nossa, comi demais nesse Natal.
O que me leva a pensar... o ato de comer é uma coisa muito estranha. Não me leve a mal; eu adoro comer. Mas é muito frustrante, chato e inconveniente o fato de que você tem que comer TODA HORA! Você come uma coisa; logo depois tá com fome de novo.

Mas tem uma beleza poética na metáfora que faz da gente: um saco existencial furado onde não importa o que você coloca, sempre cai, deixando-lhe vazio e você precisa de mais e mais e mais.

domingo, dezembro 23, 2018

Natal tá aí e com todas as necessárias problematizações que a humanidade vem fazendo em relação ao machismo, ao conceito de poder, desperdício etc. eu fico pensando como a tradição de “dar presentes” faz intercessão com tudo isso e merece também ser revista.

Eu acho que posso me arriscar a dizer: eu não gosto de receber presentes.

A parada é a seguinte: a medida que você envelhece, você não quer mais perder tempo com coisas que você não tem certeza se precisa. “Eu só quero saber do que pode dar certo”, diz a música dos Titãs. E é mó verdade. Quais as chances do presenteador te dar EXATAMENTE o que você quer ou precisa?

Se você pensar na crise de espaço que existe num mundo superpopulado - em especial nas cidades - com a oferta imobiliária ficando cada vez limitada e ruim... não faz sentido você dar algo que vai ocupar ainda mais espaço! É mó doideira o quanto de objetos e coisas nós acumulamos também por conta dessa pressão social de “dar presente”. Em última análise, o ato de presentear é até invasivo. Sério, é tão século passado. É um pequeno estupro; os outros te forçam a querer algo que na maioria das vezes fala mais deles do que de você. Te dão um quadro e agora você tem que pendurar aquilo para que, de dois em dois meses, quando o presenteador vem te visitar, admire o símbolo de que ele é um bom amigo a ponto de ter um quadro na parede dado por ele. Um monumento ao seu ego. É fácil pros outros falarem “Ai, que amargo. Ela deu com mó boa vontade e você reclama” afinal de contas, não são elas que acordarão todos os dia de suas vidas e olharão para aquele algo indesejado ocupando espaço. E aí vai somando, nós começamos a ter que achar espaço pra todas essas coisas, virando em última instância, um colecionador de coisas que são suas donas e não o contrário; afinal está refém delas.

Então, sim, minha nova coisa é: não me de presentes, sou contra. AKA to pobre, então justifico com essa narrativa, minha ausência de contribuição ao pé da sua árvore de natal.

sexta-feira, dezembro 21, 2018

Às vezes eu fico pensando se a forma como as obras “de época” retratam a linguagem não é um grande equívoco. Se, caso construíssemos uma máquina do tempo e visitássemos 1500 não nos surpreenderíamos de ver que ninguém falava daquele jeito “rebuscado”. E mais: que não é o caso do linguajar não-coloquial ter caído em desuso e sim o fato de que ele nunca foi para a lingua falada; apenas escrita.

Explico: quando escrevemos não traduzimos a forma com a gente, de fato, fala. Tudo bem; hoje em dias até existe a liberdade pra fazer isso, mas ainda o quanto livre e informal seja a nossa capacidade de comunicação escrita, naturalmente colocamos um chapeuzinho mais rebuscado na hora de escrever. (Tipo, olha o jeito como escrevi esse parágrafo! O pensamento de fala é diferente do de escrita; não tem como. Aquele é errático e este pensado)

Fico pensando se quando vemos os caras falando “Vosmicê deveria falar com a Senhorita e oferecê-la um regalo para conquistá-la” eles já não falavam “Coé, lek. Chega na gata e dá um bregueti que ela gama!”

Aliás, não só na linguagem: em tudo!

Porra, as roupas! Aposto que geral ficava na vadiagem, camisa de botão aberto e aí, quando ia rolar foto ou pintura, todo mundo se emperiquetava com roupas, perucas etc. - porque era um grande momento social. Aquilo ia ficar “pra sempre”. Pensa no instagram: ninguém tira foto mulambento. A gatinha ajeita o soutien pro peito parecer maior, o gatinho estufa o muque pra parecer forte... essa é a parada; a gente quer se passar “melhor” para a posteridade. E acho que já rolava antigamente: escrevíamos rebuscado mas na rua era já era outro tipo de fala, estufávamos o peito, ficávamos eretos e compostos, mas assim que o flash pipocava, geral quebrava, tirava o sapato, zoava... até porque: com o calor do Rio de Janeiro e aquelas roupas de antigamente? Impossível ficar engomado daquele jeito.

terça-feira, outubro 30, 2018

No final das contas, todas essas coisas que tão acontecendo são movimentos de retorno ao ventre. É isso que o ser humano sempre tá buscando. Retornar ao momento e lugar mais perfeito que era o casulo dentro do corpo da sua mãe. Desde o trauma do corte do cordão umbilical até hoje foi só sofrimento e o ser humano médio, aquele que não se confronta muito, que não se põe muito diante do espelho, tenta voltar ao lugar mais próximo disso: a infância. A infância é sempre idealizada. E no caso da grande faixa etária do país, pessoas de 40 a 60 anos, a infância foi na ditadura. As crianças obviamente não sentiam os efeitos da ditadura - salvo a super minoria que tinha seus pais sequestrados, mortos etc. Então, no fundo no fundo, generalizando, tirando as que tem o mínimo de senso crítico; acham sim que a ditadura não foi um problema.
Esses movimentos onde o revolucionário e o reacionário trocam de lugar, esse movimento de retorno aos "valores" e preceitos vigentes na infância dos adultos "dominantes", tem acontecido a vida inteira e em todos os lugares - alguns bem sucedidos, outros não. E se serve de consolo, vai virar mais cedo ou mais tarde no Brasil, pois esses mais velhos vão morrendo e as pessoas da minha geração (anos 80-90) - cuja infância foi o momento de abertura pós-ditadura, de exaltação da liberdade e comunhão social - vão querer voltar para esse lugar de infância e vão "destronar" as tias bobocas e os fascistas convictos. E pra sempre ficaremos fazendo esses movimentos circulares. Cada um querendo voltar pra sua verdade de infância.
Sugestão quanto a tudo isso? Sei lá. Tenham filhos e façam a infância deles deliberadamente uma merda pra que eles não queiram nunca voltar pra esse momento? Mas nove foras do nilismo, temos que nos ligar que não somos carangueijos pra andar pra trás e finalmente construir futuro e não  remontar passado.

sábado, outubro 06, 2018

CRÔNICAS DE FIM
Capítulo 1


O bar de Geovani se chamava “Regininha” por conta do estabelecimento que antes existia ali; uma padaria fundada em 1950 por seu Antônio. Portuga clássico, chegara em Sergipe vindo da Bahia, vindo dos Açores. Batizou de Confeitaria Regininha em homenagem a sua primogênita de mesmo nome.

Mas Geovani só sabia disso por ouvir a história. Quando começara a trabalhar no Regininha, no começo dos anos 1980, o estabelecimento já era comandado pela própria; uma então quarentona que relembrava sempre a história de seu saudoso pai.

Tão logo veio o plano Collor e Dona Regina levou um tombo. No caso, financeiro. Mas Seu Edmundo, seu marido, se acidentara literalmente - dizem as más línguas que no banheiro, ao tentar observar pelo basculante a vizinha do apartamento ao lado. Na queda, fissurou a bacia e passou a necessitar fisioterapia qualificada - inexistente à época em Aracajú - para recuperar 100% de seus movimentos. Não havia jeito; eles teriam que se mudar para o Sudeste.

Dona Regina bem que tentou vender a confeitaria, mas além de não ter tempo nem disposição para fazê-lo, a verdade é que não haveria quem comprasse. Como estava devendo uma boa quantia para Geovani - seu último funcionário restante - propôs que ele tocasse a operação em troca de um aluguel mensal da estrutura e do lugar. O lucro podia ficar para ele.

Geovani aceitou. Não tinha nada a perder e também mal sabia dimensionar a dificuldade do desafio que se apresentava.

Ele tentou por um tempo levar a padaria, mas a conta não fechava. Pra piorar, sua filha Rosana - protagonista desta história - acabara de nascer. Precisando fazer algo drástico, não quis nem saber: vendeu forno, vendeu forma, vendeu cesto, vendeu até a bike com a qual sua esposa entregava pão - tudo sem consentimento de Dona Regina: que a bem da verdade tava pouco se fudendo; só queria o aluguel - e transformou o lugar na única coisa que acreditava ter potencial de trazer clientela: um boteco pé sujo.

Não foi sucesso de cara. A margem de lucro de cerveja e pinga não é fácil e a clientela humilde não gastava em luxos como salgados. Álcool e nada mais.

Era 1996 pra 1997 quando Geovani fez uma oferta para comprar o imóvel de Dona Regina. Como estava re-estabelecida financeiramente e sem nenhum plano de voltar pra Sergipe, ficou feliz de ganhar um dinheirinho inesperado; pagou a viagem à Disney que fez com os netos.

Tal qual Dona Regina, Rosana crescera no negócio de seu pai. Sempre respeitada pelos bebuns humildes, Rosana passou por todas as áreas do Regininha: seu primeiro trabalho foi ficar quietinha esperando seu pai e mãe fecharem o caixa, depois passou a ajudar na faxina bimestral, depois serviu, depois fechava ela o caixa. Junto com o bom momento que Sergipe, o Nordeste e o Brasil passavam, o negócio foi florescendo. Com dinheiro no bolso, os bebuns começaram até a gastar dinheiro com o bolinho de bacalhau - receita autêntica do velho seu Antonio - que o Regininha servia.

Mas diferente de Dona Regina, Rosana foi estimulada a sonhar e acreditar no seu protagonismo. Por seus pais e por seu país.  Era a filha única, a primeira que iria cursar faculdade. E Sergipe crescia, desenvolvia. O Brasileiro estava otimista; a clientela do Regininha não mais bebia para lamentar, mas sim para celebrar. Alguns, em verdade, nem mais bebiam; tinham se convertido evangélicos. Passaram a trazer a esposa e os filhos juntos, pois, com bolsa família, podiam se dar ao luxo de passar um domingo no Regininha com eles comendo feijoada e assistindo futebol e Domingão do Faustão na Globo. Fora o forró, pros que não tinham esposa.

Era quase final dos anos 2000. Já adolescente, Rosana começou a buzinar a orelha de seu pai para que ele expandisse e remodelasse o Regininha. Geovani desconversava. Por um lado gostava e admirava a capacidade de sonhar de sua filha - lutara para que ela a tivesse! - mas por outro sentia que era um pouco ingenuidade dela. O adágio que fala que *alegria de pobre dura pouco* o fazia recorrer a outra “sabedoria popular” socialmente discriminatória e dizer que sabia qual era o seu lugar. Mas Rosana sabia melhor.

Levou o pai às lágrimas numa agência de um desses bancos cuja estratégia era exatamente fazer linha de crédito pra baixa renda: conseguiram um empréstimo - o primeiro da vida de Geovani - para, a toque de caixa, reformar o bar adicionando chopeira, um cardápio, TV e nova disposição. Ao todo, o bar ficou fechado por apenas 1 mês e meio.

A estratégia deu certíssimo do ponto de vista financeiro. A repaginada fez toda a diferença e a clientela fixa deu o suporte para a vinda de novos frequentadores que, de repente, notaram a existência e a vibrância do Regininha e resolveram averiguar qual era a do lugar.

Rosana prestava “consultoria” vez ou outra, mas estava focada na UFS (Universidade Federal de Sergipe), onde cursava enfermagem.  Se o plano Real resetou o sistema e fez Geovani botar a cabeça pra fora, o fome zero e o bolsa família deram poder de compra pra seus clientes e tudo começou a caminhar a contento.  

Até que 2014 chegou e tudo mudou.

Geovani adoeceu. Câncer. Rosana teve que trancar a faculdade para tocar o Regininha. Sua mãe ficava encarregada de todo o necessário suporte a Geovani, entrando e saindo de internação no hospital.

Uma vez que de tão onipresente a tragédia passou a ficar de pano de fundo, Rosana começou a reparar o quanto a clientela do Regininha tinha mudado. A contagem de cabeça talvez tivesse até melhorado. A quantidade de consumo, com certeza. Mas os extratos populacionais eram outros.

Os bêbados originais mal davam as caras. Colegas da sua antiga escola - cujos pais tinham ascendido financeiramente de tal maneira a ponto de irem estudar em escola particular - frequentavam o bar. Paravam seus Audis e HB20s tunados na porta - às vezes com o som ridiculamente alto tocando - e bebiam além da conta, jogavam sinuca, assistiam UFC ou futebol - afinal o Regininha tinha feito este investimento num gatonet para ter Combate e PFC - e volta e meia arrumavam confusão entre si ou com outros... mas sempre compravam o perdão de Rosana deixando uma gorjeta desproporcional ao consumo.

Preocupada com os crescentes tumultos e a crescente ausência da clientela original - estimulada tanto pelos novos clientes quanto pela gentrificação em Aracajú - Rosana contratou um segurança para lhe dar suporte. Mas a situação era complicada, afinal, entre os machos bestas e frágeis, tinha filho de político e policial que andava armado fora do serviço. O segurança era apenas alguém desproporcionalmente grande que servia supostamente pra botar medo.

A melhor coisa do Regininha tinha se perdido: a alma do encontro. Com a histeria coletiva que passou a tomar conta do país, o lugar virou um reduto de débeis extremistas e à partir do impeachment de 2016 o trem descarrilhou. Vindicados pelo Golpe, os frequentadores classe média que acham que são ricos - porque não tinha nenhum milionário ali; era só um bando de “filho de” - destilavam sem vergonha todos seus preconceitos, burrices e inseguranças. Rosana se poupava e era poupada das conversas de que “toda mulher é puta”, que “preto só faz prentice” e outras coisas de quem tem pouca massa encefálica e zero empatia.

Mas o desconforto, lógico, batia em Rosana.

Aquele dinheiro que parecia entrar em hordas, ela percebeu, era muito pouco para o que ele estava comprando: sua integridade. A nota fiscal dizia balde de cerveja, ice e vodka, mas a verdade é que, ao frequentar o Regininha, estes imbecis compravam duas coisas não-declaradas: dali pra fora, um álibi de que não eram racistas ou machistas - afinal; frequentavam o que, apesar de toda a reforma, ainda era em alma um pé sujo, um “bar de pobre” com nome de uma mulher, comandado por uma mulher - e, dali pra dentro, compravam a certeza de que aquela era a exceção que comprovava a regra dos estúpidos, porque, apesar de mulher, preta e pobre, *Rosaninha* era querida por todos; tinha “alma de branco”.

Foi ficando cada vez mais difícil pra ela. O ódio e o preconceito sempre mascaram um problema da pessoa com a sua própria existência. Eles começam a projetar nos outros todas as coisas às quais não tem força ou capacidade de lidar. Nunca lhes é suficiente. Começa com o cortar da unha, até chegar ao cortar da cabeça.

Marcão, o segurança - preto como a noite - foi o primeiro a sentir na pele o peso da sua pele. Durante uma noite de UFC, uma das mesas de babacas começou a ver no celular o video de Jair Bolsonaro falando de pretos que não serviam nem para procriação. Um deles - bêbado após meio copo de Red Bull com Uísque - levantou alto, cambaleante e com bafo abraçou o segurança:

- “Menos o Marcão! Ouvi falar que o Marcão tem uma jeba; comeu todo mundo lá em Lamarão!”

Marcão, sentado em sua banqueta, na dele, alerta observando o movimento, só falou: “Não encosta em mim, Playboy.”

Foi o suficiente pro clima esquentar. Não fizeram nada. São frouxos. Mas ficou a promessa. E pouco a pouco, a cada absurdo que Bolsonaro falava e fazia publicamente, foram ganhando a coragem que não tinham para serem tão imbecis quanto seu porta-voz.

Numa tarde, antes de Marcão chegar ao serviço, um dos merdas apareceu com um pôster de Bolsonaro para prender na parede do bar. Rosana ainda tentou argumentar que não queria o pôster ali; disse que não queria se envolver papo de política, que o Regininha não tinha qualquer posicionamento. O babaca ainda fez o bom moço e disse que respeitava a posição dela - como se ele tivesse algum direito a opinião sobre o que ela faria com o estabelecimento comercial e próprio dela... - mas deu aquela ameaçadinha dizendo que a clientela toda dela era Bolsonaro e ela devia pensar bem se ela não queria que eles se sentissem bem-vindos ali.

Rosana era inteligente o suficiente pra perceber que o caldo estava entornando. E malandra o suficiente pra saber escolher quais as batalhas enfrentar: quando começaram a deixar santinhos de Bolsonaro no balcão do bar, ela simplesmente fingia que não via e, quando a pessoa que deixara o material ia embora, ela simplesmente pegava o bolo e discretamente jogava no lixo.

Apesar de ter mutado todos os grupos de WhatsApp aos quais era re-incidentemente inserida, ela sempre olhava as barbaridades que eram compartilhadas e isso foi lhe fazendo um mal. Rosana já não se encontrava em si. Rosana era uma velha lembrança.

O desespero deu lugar à desesperança quando, faltando uma semana para o primeiro turno, Seu Geovani faleceu.

O luto de Rosana foi respeitosamente interrompido por uma mensagem de seus clientes mais charmosos. Ele teve a delicadeza de mandar lírios para Rosana e sua mãe e, representando todos os outros clientes, a inquiriu sobre uma causa muito nobre: queriam saber se o Regininha ia abrir para a grande luta entre Connor McGregor e Khabib Nurmagomedov pelo UFC 229.

O evento era sábado, 6 de outubro. Momentos antes de dar meia noite e a lei seca entrar em vigor por conta do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018.   

Rosana demorou a responder aquela mensagem grotesca e insensível. Coletou os pensamentos, interiorizou a raiva, absorveu coragem e engoliu as lágrimas. Como todas as mulheres, seu corpo era pequeno, mas seu interior infinito. 

Ela tinha um plano.

Respondeu: “Mas é claro. Só uma noite de Regininha bombando vai arejar minha cabeça. Devo isso ao meu pai. Avisa todo mundo no zap que sábado o UFC vai ferver e, como não posso vender bebida no domingo, vai ser 2 por 1 emoji cerveja emoji cerveja emoji dinheiro voando”

Faltando poucas horas pra abrir, Rosana terminou de passar maquiagem e ajeitar o cabelo. Fizera chapinha. Nunca havia maquiado o rosto para trabalhar no bar. Nunca havia alisado o cabelo para qualquer ocasião. Mas aquela noite pedia.

Assim que Marcão subiu a grade do Regininha, já havia umas 5 pessoas prontas para entrar. Mal o evento começou e Rosana deu um sinal para Marcão. Subiu no balcão, abaixou o volume do sistema de som e falou pra todos: “Atenção, clientes! A melhor noite de hoje é aqui no Regininha! Avisa aos amigos! Rodada de cerva pra todo mundo de graça e um presente especial pra todos meus clientes que vierem! UHU!!!” e levantou sua blusa mostrando seus peitos cobertos apenas por um soutien.

A platéia de boçais foi a loucura. Após anunciar que ia servir pessoalmente cada mesa com o chopp de graça, Rosana procurou com os olhos Marcão, que sinalizou como se dissesse “missão cumprida”. Ele havia filmado e disparado nos grupos de WhatsApp.

Em pouco tempo, o Regininha tava com gente saindo pelo ladrão. Todo o pior tipo de pessoa de Aracajú estava se apertando pra ganhar chopp de graça e, se tudo der certo, ver um par de peitos da pretinha de cabelo liso do Regininha. Deu de tudo; casado que abandonou jantar de família, pai que esticou ali depois da festa de 3 anos da filha e até o pastor da Igreja em frente.

O que nenhum deles percebiam era que Rosana estava enganando e atraindo todos eles para o Regininha sim pela memória de seu pai; mas não da maneira que pensavam. Usando-se de seus conhecimentos intelectuais e interpessoais adquiridos do curso incompleto de enfermagem, Rosana descolou doses cavalares de Flunitrazepam (também conhecido como Rohypnol, ou “Boa-noite, Cinderela”). Tendo atraído toda sua clientela de Bolsominions, usaria o chopp de graça como cavalo de tróia para o “Boa-noite, Cinderela” que faria todos do bar dormirem até o fechamento das urnas às 17h do dia seguinte.

Os 200 e poucos votos a menos fariam diferença e tirariam Bolsonaro do primeiro turno? Dificilmente. E Rosana e Marcão tinham noção disso.

Mas não era essa questão.

A questão era fazer a coisa certa e cobrar de volta tudo que não vinha sendo declarado na nota fiscal da relação Rosana-Clientes.

Era tomar ação e fazer sua parte.

O plano foi indo bem. Marcão, normalmente parado, só se mexendo quando para apartar alguma confusão, estava volante. Passava pelas mesas para garantir que todos estavam bebendo seus drinks soníferos. Se alguém não tivesse, avisava a patroa, que ía até o cliente pessoalmente e, jogando charme, o fazia beber.

Até o momento em que Rosana foi puxada pelo braço num canto pelo mesmo cliente bom moço que mandara a mensagem. Era ex-colega de turma quando criança e emissário do resto. Rosana levou um susto e se armou, mas ele logo pediu desculpa e, com sorriso doce, falou:

- “Você tá bem?”
- “To e você?” - disse Rosana, dando dois beijinhos, como se tivesse encontrando-o.
- “Não... não é isso. Você tá bem? Negócio do seu pai...”
- “Ah... to triste, né? Mas ele vinha sofrendo muito... melhor assim.”
- “Claro, claro. Eu rezei muito por ele.”
- “Ai, brigada” - disse Rosana com uma falsidade...
- “Mas... você tá bem mesmo? Qualquer coisa você pode me falar.”
- “Eu to bem. Dentro do possível, eu to bem” - disse Rosana já um pouco começando a se enervar.

E não é que ele estava naquele papo de bêbado.... Rosana pensava que ele estava só forçando um cuidado, uma preocupação que não era genuína e não se comovia; qualquer máscara de humanidade daquele povo tinha caído há muito.

Mas Rosana leu errado. A preocupação não era com o seu mal-estar e sim com o seu *bem*-estar.

Ele logo foi falando que ela estava esquisita; toda arrumada, com cabelo alisado. Que muito estranhou ela subir no balcão - pior ainda quando levantou a blusa; ela “não era assim”.

O problema para ele era que, ao sair de trás do balcão, ao cuidar de si e se apresentar livre e pimentinha, Rosana traía a expectativa dele sobre ela. Diferente de seu finado pai, Rosana “não sabia o seu lugar”. Ela podia andar entre eles, mas só numa específica raia. Ela não era parte deles.

- “Na real eu só vim aqui porque eu vi o video e fiquei preocupado com você. Eu nem vinha... vou ser mesário amanhã. Não posso beber.”

Rosana olhou para o lugar onde ele estava e, de fato, não havia  bebida alcoólica. Marcão não deve ter reparado.

Aquilo era um problema.

Se todo mundo começasse a cair no sono - e ela olhou no relógio e faltava pouco para o momento onde isso aconteceria - o “bom” e sóbrio moço poderia reparar a estranheza disso, juntar os pontos e criar um problema. De fato, olhando o salão; já se percebia um ou outro até meio encostados, prestes a entrarem no sono.

- “Eu não vou contar pra ninguém se você não contar pra ninguém” - disse Rosana, odiando ter que prostituir sua sedução para sobreviver.
- “Para com isso, Rosana! Você não é assim.”

O medo da escalada de volume da voz e da expressão corporal do bom moço ativou os canais lacrimais de Rosana. Depois, a raiva segurou todo o transbordar. Por fim, no fingimento, deixou uma lágrima furtiva cair: “Você tá certo. Eu não sou.”

Suspirou fundo e falou que tinha que resolver umas coisas rapidinho, mas que adoraria que ele a encontrasse na salinha de gerência que ficava nos fundos para que ela pudesse desabafar um pouco. Ela queria a “orelha amiga” dele, mas não aceitaria se ele não bebesse alguma coisa na conta da casa. Ele recusou, recusou, mas aceitou uma Schweppes Citrus, devidamente batizada com o “Boa-noite, Cinderela”.

Rosana explicou rapidamente para Marcão tudo que estava acontecendo e pediu que ficasse de olho - se alguma coisa acontecesse, que batesse à porta. Eles sairiam pela porta dos fundos.

O bom-moço nem reparou que a mesa ao lado da porta da salinha já estava nos braços de Morfeu. Ajeitava o cabelo excitado com o fato de ter um mano-a-mano com Rosana numa sala à noite. Na cabeça do machista isso é um convite para transar.

Quando Rosana fechou a porta atrás dela, o barulho ficou pra trás. E isso dava medo em Rosana, pois significava que do outro lado também não os ouviriam.

Mas essa história não tem final ruim.

O bom-moço logo tomou um golão de schweppes - Rosana e Marcão tinham botado o ar-condicionado quente para que todos sentissem calor e bebessem muito. Ele não teve tempo, nem oportunidade de fazer nenhuma investida. Rosana não teve que fazer muito além de ficar falando sobre estar triste com a morte do seu pai. Fraco, rapidinho o bom-moço começou a falar incongruências, dizer que tava com sono, até adormecer.

Na mesma hora, à porta bate-se 5 vezes.

É Marcão.

Ele abre, vê a cena e aponta com a cabeça pro salão: “Tá feito”.

Rosana anda com ele e vê a cena, 200 e tantos boçais largados um em cima do outro, pelo chão, pela mesa, pelas cadeiras. Só a TV anunciando: “Tá na hora do evento principal da noite!”

Marcão fecha todas as portas do Regininha. Só estão ali ele, ela e 200 e poucos fascistas eleitores de Bolsonaro.

- “Pegou o celular de todo mundo?”
- “Peguei”
- “Desligou o celular de todo mundo?”
- “Desliguei” - disse Marcão -“Tem certeza que esse povo vai dormir até as cinco?”
- “Até as oito. Mas ao meio-dia eu vou dar outra dose pra todo mundo. Não esquece do plano!”

O plano era, na madrugada de domingo pra segunda, com todo mundo dormindo - não só eles no bar, mas a cidade toda - “devolver” os fascistas desacordados para lugares perto da casa de cada um, ou outros lugares que corroborariam com a tese de que beberam tanto que ficaram desacordados na sarjeta. Depois disso, ambos fugiriam de carro rumo a algum lugar bem longe dali para nunca mais voltar.

- “Não era melhor tacar fogo na porra toda?”
- “Não. Eu quero que eles saibam. E sintam vergonha de contar que foram enganados por uma mulher preta e pobre.”

Quando Marcão coloca o “bom-moço” em cima de uma pilha de outros fascistas como quem derruba um saco de batata no chão, Rosana sobe mais uma vez em cima do balcão.

Saca seu telefone, põe a língua pra fora, ergue o dedo médio e tira uma selfie com os merdas todos ao fundo.

Envia a foto para todos os celulares presentes com uma mensagem de uma palavra: “Mitei.”

FIM (mas continua)